RELATOS DE VOOS

RELATO DO PILOTO SERGIO ANDRADE - FAI 1100

Em novembro de 2018, Itamar e eu havíamos conseguido fazer o primeiro triângulo FAI de 1000 km no Brasil, partindo de São Benedito, CE.

 

Como havia sido um dia de térmicas fracas e bases mais baixas que o normal para a região, passei a me indagar se conseguiria fazer um FAI de 1100 km.

 

Costumo brincar que, para o voo a vela, a Serra da Ibiapaba é uma máquina do tempo, pois devido sua orientação N-S e aos ventos alísios, permite que se decole 2 horas antes e já ter feito uns 160 km para o Sul antes das térmicas começarem.



 

Voo na colina

Esta perna requer muita atenção, pois se for tomada uma decisão errada e ficar abaixo da faixa de lift, terminou o voo: já tivemos que ligar a 80 m AGL...

 

Voltando ao 1100, “voei” vários triângulos no Seeyou, tanto para E, no Ceará, quanto para W no PI.


Para o inconveniente é ter que encarar o vento na segunda perna, quando as térmicas ainda estão fracas; em compensação a terceira perna é vento de cauda. Ceará tem muito mais infraestrutura e pistas do que o Piauí, o que traz mais conforto mental.


 O interior do Piauí é um deserto humano, por dezenas e dezenas de quilômetros não se vê vivalma.

 

Em compensação a meteoro é mais forte e o vento de cauda na segunda perna faz com que a velocidade seja muito boa. Em compensação...a última perna encara o vento, descendentes no sotavento da serra, com as térmicas enfraquecendo e se espaçando.

 

Estudando o Skysight, havíamos decidido tentar os 1100 para E, indo até Fronteiras para o S, depois até perto de Mossoró para NE, Granja para NW e finalmente chegada num ponto a E de Guaraciaba, na borda da Serra.

 

Como o Skysight estava prevendo cumulus só à tarde, resolvemos mudar a

Prova para o Piauí: primeira perna até Campos Sales, depois a mais longa para aproveitar a meteoro até NW de Teresina, NE para Granja e finalmente S para chegada.

 

Decolamos às 10:22 Z e motoramos uns 29 km até antes do ponto da largada.

 

Depois de decolar, vi que o LX estava “travado”, mostrando o mapa da Eslovenia na tela; enquanto motorava, desliguei e liguei duas vezes e nada. Eu havia retirado o SD para copiar as provas nele. Coincidência ou não, quando em voo recoloquei o cartão, na hora passou a funcionar. Após desligar o motor, cruzamos a largada as 10:44 Z

 

A perna para o S na borda da Serra depende da intensidade do vento e interação entre este e seu relevo, que é muito recortado. Com vento fraco, cerca de 20 km/h, voamos a 110 km/h (melhor planeio), mas com tantos desvios, a velocidade resultante fica em torno de 80 km/h.

 

Os cumulus começaram a aparecer mais cedo e mais altos que das outras vezes, preconizando um dia forte.

 

Depois de virar Campos Sales aproamos NW para União.

 

O início dessa perna foi difícil, pois essa rota passa por cima da chapada, onde o terreno, por ser mais alto, fica mais frio a noite e libera menos térmicas: é frequente ver a chapada sem nuvens, enquanto até suas bordas estão com cumulus, mesmo no fim do dia ficamos baixo, tendo que aceitar uma porcaria até ganhar um pouco de altura pra poder voltar pra trás e subir numa térmica decente. Daí em diante, uma vez atravessada a chapada, o dia foi ficando cada vez melhor, com lindas nuvens de bases largas e lisas e relativamente próximas, formando estradas alinhadas com nossa proa.

 

Fazíamos 200-220 km/h entre as nuvens, reduzindo para 100 nas térmicas, só rodando se fossem muito fortes.

 

Integrando 8,4 m/s a quase 2.300 m!

 

A velocidade média dos últimos 60’ foi aumentando até chegar a 160 km/h, no final desta perna.

 

Após virar União, o voo mudou do vinho pra água: acabaram as estradas e o vento que ajudava, agora atrapalhava. além das térmicas já começarem a enfraquecer. E ainda faltavam 400 km para completar a prova...

 

Ainda faltando uns 200 km, Silvio e eu alternávamos a certeza que teríamos que abandonar a prova e a leve esperança que a condição melhorasse. Nossa esperança era chegar à zona de convergência gerada pela cunha marítima, perto de Granja, 100 km a N da chegada.

 

Faltando 200 km, enfrentando as descendentes a sotavento da Serra

 

Eu me recriminava por ter proposto café da manhã às 6. “Que estupidez a minha, devíamos ter levado a comida no planador e com isto ganhado meia hora!

 

“Voando e aprendendo...”

 

Mas a atmosfera já estava parada. Voávamos devagar por cima de uma atmosfera meio cinzenta, a zona de inversão gerada pela frente marítima.

 

O planador foi descendo até ela, mas fora algum zerinho, nada. Após contornar o waypoint, resolvemos aproar São Benedito e não mais o ponto de chegada, pois já estávamos mais baixo que a Serra. O vento Sul, ao contrário do Norte, mostrava que a convergência já havia acabado e o que estava ocorrendo era seu oposto, divergência.

Passados alguns km, a barlavento de uma montanha, no azul, encontramos uma térmica, fraca. Subindo devagar e andando pra trás, sabia que não cruzaríamos a tempo a linha de chegada. Depois de subir o que julgava suficiente para arriscar o lift da encosta, fomos nos aproximando dela e, apesar do vento fraco, foi possível ir ganhando altura lentamente, voando no melhor L/D.

 

De volta ao lift da Serra, ganhando 700 m sem rodar!

 

Que sinfonia para os ouvidos o pipipi do vario numa hora destas!

 

Quando vimos que já havíamos ganho altura suficiente para fechar a prova, largamos a colina e aproamos a chegada, completando a prova!

 

Cruzando a linha de chegada

 

Foram 10 horas de voo planado ( média de 110 km/h) mais cerca de meia hora no motor, indo para a largada e voltando para aeroporto.

 

Operação “ desmonte”

 

Se estiver confortável dentro do planador, bebendo bastante água e tendo um bom sistema de “drenagem” é bem suportável.

Afinal, estamos fazendo o que gostamos!

 

A meu ver o grande risco de um voo longo, especialmente se tiver muitas fases estressantes, é a fadiga mental, que pode levar o piloto a tomar decisões arriscadas ou então, não tomar nenhuma...

 

Ao pousar ontem, cansado, estressado com as fases finais do voo, a primeira coisa que disse foi “não faço mais isto!!”

 

Hoje já não penso assim...

 

A marca da humanidade é a inquietude, segundo Schopenhauer...

 

Sergio Andrade



RELATO DA PILOTO VALÉRIA CASELATO - PRIMEIRO RECORDE FEMININO BRASILEIRO


Ao retornar para o Voo a Vela em 2010, um dos sonhos que sempre acalentei era um dia poder realizar os recordes femininos no Voo a Vela. Até o momento nenhuma mulher no Brasil havia conseguido tal feito, e eu queria ser a primeira! 

No meu churrasco do 2º solo de planador (sim…tive dois solos e duas licenças de piloto de planador), pois o primeiro aconteceu quando eu tinha 15 anos, no Aeroclube de Bauru/SP, meu clube de origem. Posteriormente perdi o documento da licença impedindo a sua renovação e então fui obrigada a fazer o curso novamente no Aeroclube de Voo a Vela CTA, após 25 anos sem voar, e durante a comemoração do segundo solo, declarei a todos que um dia iria conseguir as insígnias e registrar os recordes femininos.

No ano passado (2018) eu havia tentado realizar a Insígnia C de Diamante 300 km FAI pré-fixados  mas na última perna ocorreu o pouso fora, em condições muito desfavoráveis.

Este ano, durante o 61º Campeonato de Voo a Vela do Centro-Oeste, em Luís Eduardo Magalhães/BA, houve a oportunidade de realizar a insígnia C de Diamante no dia 11/09/2019, na mesma rota que fiz o ano passado, e desta vez tive sucesso.

Com a realização do 300 km FAI pré-fixado, ainda faltava realizar o sonho de bater  recordes. Havia dito que não sairia de LEM, enquanto eu não conseguisse meu recorde. Desta vez estava mais preparada, já dominava melhor o planador, e após 6 dias de provas, eu havia aumentado minha velocidade média para 85 km/h, o que me habilitava a realizar recordes com velocidades maiores.

Um detalhe importante foi que durante este ano, voei muito no CONDOR (voo virtual) na região de LEM, tanto no Campeonato Invernal Argentino, quanto no 2º Campeonato Panamericano de Voo a Vela Virtual da FBVP, conseguindo  completar as provas, e aperfeiçoando as navegações e planeios finais. Houve uma grande melhoria na minha performance no voo virtual, e isso influenciou muito o meu desenvolvimento no voo real.

                                                                                       

                                                    Prova proposta para Classe Clube no dia 14/09/2019

Havia falado ao Sergio Bassi, meu namorido, que somente iria embora de LEM após fazer meu recorde. Ele e o equipe Jonas, estavam ansiosos para irem embora, e no último dia de prova, foi marcada uma prova de área com dimensão suficiente para comportar um triangulo FAI de 300 km. Sergio montou uma prova paralela, aproveitando a prova do campeonato para que eu pudesse realizar o recorde e ao mesmo tempo participar competitivamente da prova.

 

E a rota  que eu deveria fazer, usaria pontos pré-fixados, que permitissem um percurso acima de 300 km. Na ausência de pontos de virada oficiais disponíveis foram criados pontos virtuais, chamados VAL300-0 e VAL300-5. As minhas chances de conseguir uma boa posição no campeonato eram reduzidas, já que além de ser a piloto menos experiente da classe, estava voando o planador com maior desempenho pagando handicap para todos os demais. Resumindo, teria que voar distâncias maiores que os outros para obter velocidades médias mais altas para compensar o handicap. Não é fácil. Então decidi que voaria para tentar o recorde ao invés de lutar pela 3ª colocação.

 

                                                                                             

Prova proposta para o Recorde (em roxo)

 

 

A decolagens iriam se iniciar as 11 h, com a Classe Open em primeiro lugar, depois a Classe Racing, e por último a Classe Clube, onde eu voava de Libelle 201B (PT-PAV, CN AV) sem lastro, com Handicap de 98, o mais alto da classe. Fui a penúltima a decolar.

 

Para que um recorde seja validado, é necessário seguir algumas instruções da FAI, como por exemplo transpassar os “beer cans” nos pontos de virada, cilindros com 500 m de raio à  partir do centro dos pontos. A diferença de altura entre a largada  e a chegada não pode exceder 1000 m.

 

Decolei, o céu estava azulado, vento de 25 km/h, descendentes fortes, e tive muita dificuldade para subir. Cheguei aos 1000 m, mas ao me deslocar para outra térmica, perdi muita altura, e desci para 600 m. Foi quando eu escutei na fonia o motoplanador Sinus, dos pilotos Daniel e Leonardo Lenz, informando que iriam pousar e realizar uma nova decolagem. Confesso que pensei em fazer o mesmo, pois estava cansada de batalhar para subir, mas de repente eu vi o Jantar EP, pilotado pelo Nilor Mendes, e resolvi ir junto com ele, rodar aquela térmica. Assim, devagar, fui subindo e alcancei uns 1300m. A orientação que havia recebido era que largasse com 1200m, e depois subisse o máximo que conseguisse, e desse uma nova largada, mais alta, para a prova do campeonato. Deveria cumprir os pontos já determinados (VAL300-0 e VAL300-5). Consegui alcançar por volta de 2400 m, e dei a segunda largada e fui direto ao primeiro ponto, com uma velocidade media de 150 km/h. O céu continuava azul, sem nuvens, mas no caminho encontrava térmicas que aproveitava para subir em linha reta. 

 

Coloquei como piso a altura de 1500 m para iniciar a rodar térmicas, e sempre olhava para o solo, observando os dust devils (redemoinhos) no caminho. Não estava querendo girar térmicas nos dust devils temendo a turbulência, mas sabia que nas suas proximidades poderiam haver outras térmicas. Não visualizava quase nenhuma ave que são boas marcadoras de térmicas, porém enxergava o sinal promissor que no norte havia formação de nuvens.

 

Continuei o caminho na direção do meu ponto VAL300-0, com a ajuda do OUDIE (computador de voo) e um GPS  Etrex Vista, conseguia seguir bem a rota. As vezes desviava de fogueiras, e o ar estava turbulento. Algumas vezes a turbulência jogou tudo que estava solto na cabine para cima. Neste momentos, segurava firme o manche e os pedais e aumentava a velocidade, para passar rapidamente por essas regiões. Houve um momento que a turbulência foi tamanha que jogou a água que eu bebia do camel back no plexi, deixando tudo molhado. Quando a turbulência acalmava, eu aproveitava para comer algo. 

 

Normalmente quando voo levo, bananinha sem açúcar (2 a 3 unidades), barras de grãos (2),  Red Bull (normalmente 1 lata, mas nesse dia foram 2, já que a chance de pouso fora poderia ser maior). Também levei 3 pães de queijo pequenos, 2 litros de água no camel back, e um pacotinho de biscoitos integrais (caso pousasse fora). A água bebo sempre, em goles. Nos momentos que estou rodando térmicas, evito de comer, e me concentro mais em subir. Quando estou no planeio, então como algo, ou bebo. O Red Bull sempre bebo no meio do voo, para dar um “UP” na minha atenção. Não poderia faltar no meu relato o momento Nutricionista, minha profissão rs.

 

No meio da rota para o Primeiro Ponto, fui chamada no rádio pela equipe e depois pelo piloto Elton do rebocador FLS. Ambos solicitavam que eu checasse meu spot (sinalizador via satélite), pois não estava ocorrendo a transmissão que pode ser acompanhada no solo pela internet. Meu Spot parecia estar funcionando normalmente, mas algo no compartilhamento não estava correto, apesar de eu ter testado isso antes da decolagem. Como continuava o problema na transmissão, orientei o Elton, que fazia ponte com o Jonas, minha equipe no solo, para que pegasse meu computador, com a senha de acesso que agora é do conhecimento nacional, e refizesse o compartilhamento. Pena que não funcionou. Sergio também me chamou no rádio, me dizendo que a meteorologia estava favorável e seria possível eu realizar o recorde.

 

Finalmente cheguei ao primeiro ponto com 1500 m, e deveria alcançá-lo dentro do raio de 500 m. O medo de não tocar o ponto na distância certa, me fez passar por ele umas 3 vezes. Com isso perdi altura, e busquei uma térmica para subir. Consegui uma térmica forte e fui a 2300 m. Este ponto ficava próximo da divisa com Tocantins, na direção do Jalapão, e reconheci uma de suas montanhas e pude ver a beleza dos vales e planícies e a montanha ao fundo em formato de trapézio. Segui em direção ao Segundo Ponto (VAL300-5), favorecida pelo vento de cauda. 

 

                                                                                                  

Essa foi a visão do Jalapão que tive em voo

 

O meu plano era me manter o mais alto possível, diminuir a velocidade nas térmicas, e quando chegasse por volta de 1500 m, eu rodaria alguma térmica forte, com inclinação de 45º para subir mais rápido. A velocidade média ficava sempre entre 120 km/h a 150 km/h, e quando passava pelas térmicas, diminuía para 90-100 km/h.

 

Chegando no Segundo Ponto, acabei ficando abaixo de 1000 m , mais precisamente 980 m, o que era muito abaixo da minha meta de piso. Procurei uma térmica, e só encontrei uma fraca (1,5 m/s), mas me mantive para ganhar um pouco de altura, e poder buscar outra térmica mais forte com tranquilidade. Do Primeiro Ponto para o Segundo Ponto, as nuvens estavam mais presentes, o que ajudava a balizar as térmicas, e a seguir o corredor de nuvens e me manter mais alta.

 

Assim que consegui subir um pouco, avistei dois urubus rodando uma térmica, fui ao seu encontro, e encontrei uma térmica forte! Subi até 1600m, e o meu OUDIE avisou que eu já estava em planeio final. Verificava meu tempo, e vi que a duração da prova que seria de 3 h, já estava terminando. Me concentrei em chegar na pista, o ponto inicial (SWNB),  e fui desviando para debaixo das nuvens no caminho melhorando a folga do meu planeio final. 

 

Eu estava ao norte da área e para chegar no meu destino final, eu deveria cruzar a área em sua totalidade. Pouca folga no planeio final poderia ser um entrave na finalização do meu recorde, pois não poderia chegar baixo, devido à exigência da diferença máxima de altura de 1000 m entre largada e chegada.  Coloquei o tempo da prova em segundo plano e me concentrei em subir rapidamente nas térmicas, para ganhar mais altura e chegar com folga no destino. Deu certo, no caminho de volta, no planeio final, fui conseguindo subir nas térmicas, e o vento me ajudava um pouco, embora não fosse exatamente de cauda. A 25 km do destino, fiquei baixa novamente, e precisava  daquela térmica salvadora, que me fez subir, e entrar novamente no planeio final. No caminho ouvia a fonia dos outros pilotos reportando suas chegadas no aeroporto SWNB. Fui indo na direção até que por volta de 15 km fora avistei o aeroporto. Fui na velocidade de melhor planeio, e cheguei no ponto com 960 m. Consegui!! Consegui!!!! Ao terminar a prova, meu OUDIE indicava uma velocidade média de 91 km/h na prova!!!! 

 

                                                                                               


Chegada no Aeroporto de Luís Eduardo Magalhães/- SWNB




                                                                                       

Recorde realizado, registrada na OLC

 

 

Aguardei alguns pilotos pousarem, e fiquei rodando uma descendente para descer mais rápido. Pousei, estava cansada, e com sede, pois nos últimos 15 km, o meu camel back não saia água!

 

No final a minha velocidade média para o recorde ficou em 88, 51 km/h, e essa diferença aconteceu pela diferença de tempo e altura entre a largada para o recorde que aconteceu antes e mais baixa que a largada para a prova.






Resultados ao final do voo de recorde

 

 

Finalmente neste dia, com o por do sol maravilhoso de LEM como testemunha, desmontamos a Libele para voltarmos para casa: feliz, com uma insígnia C de diamante de 300 km FAI pré-fixados, e com outro voo de 300  km no qual realizei meu sonho do recorde.

 

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