Diamante - Leandro Jamarco

Relato do "Diamante" - Leandro Jamarco

Caros amigos, gostaria de relatar meu voo da última quarta-feira (03/10/2012) quando realizei algo que até mesmo eu não acreditava. Apesar de ser teoricamente possível e termos vários exemplos de voos dessa natureza já realizados por outros volovelistas, uma navegação de 300 km com a aeronave KW-1 (o nosso Quero-Quero) não é algo corriqueiro.

Dado sua performance limitada, um voo desses demanda um dia excelente e uma pilotagem quase sem erros. Para terem uma idéia, quando fiz o C de Prata, o Peter Volf me falou: “Leandro, você agora vai fazer 300 km, você só precisa de um dia com 6 horas utéis e uma média de 50 km/h.” Aliás a sugestão da rota escolhida foi do próprio Peter, por ser totalmente apoiada por pistas e rodovias.

Dado o adiamento do 54 Campeonato Brasileiro de Planadores, que seria realizado naquela semana, decidi aproveitar alguns dias para voar em Bebedouro, onde o planador I1 já me aguardava. Analisei a meteorologia desde o dia anterior e naquela manhã liguei para o meu amigo Henrique Navarro, que me ajudou com um último briefing meteorológico. A rota escolhida era a mesma de uma tentativa que fiz em Março, Bebedouro-Ponto de virada (pedágio Matão-AAQ)-Faz Brumado-Bebedouro, totalizando 302 km declarados. Naquela ocasião, em Março, acabei abortando o voo quando estava próximo a Bebedouro antes da última perna para Brumado, pois achei que o dia iria acabar mais cedo. Portanto, minha prioridade era velocidade. Faria a primeira perna com vento de cauda com cerca de 15 a 20 km/h.

Com a ajuda do Marcos do Aeroclube de Bebedouro e com o apoio dos amigos do CVV-CTA (que diga-se de passagem, fazem uma excelente temporada em Bebedouro), colocamos os planadores na pista e fui o primeiro a decolar. Reboque a 900 mts, com o Flavinho me deixando já no setor de largada, larguei por volta das 11:52.

Na primeira perna, de 97 km até meu primeiro ponto de virada próximo a Matão, com vento de cauda, fui evoluindo rápido, pois mesmo girando o vento ia me levando em direção ao ponto. A média nessa perna foi absurda, cerca de 78 km/h, pois também já ao meio dia as térmicas eram fortes, 2 a 3 m/s. Girei o primeiro ponto por volta das 13:07, e comecei a fazer as contas. Será que teria que parar meu voo em Bebedouro novamente, como na primeira tentativa. O vento na segunda perna, de 151 km seria forte de proa. A sensação quando você vira o ponto e o gps indica o próximo ponto a mais de 150 km e você de Quero-Quero não é das melhores. O pensamento era: “será que chegarei a tempo em Brumado para voltar a Bebedouro?”

Quando tomei a proa da Faz Brumado alguns cumulus se formavam na minha proa e um pouco mais ao Norte/Nordeste, sendo que os melhores estavam a cerca de 10 km a direita da minha rota. Comecei a tentar aproveitar os que estavam próximos a rota, com desvios mínimos. O duro é que eles estavam espaçados e quando eu aproava o próximo, até chegar ele já estava se dissipando. Quando atingi planeio suficiente para chegar em Bebedouro decidi aproveitar o planeio até mais baixo, pois se não achasse mais nada, pousaria “em casa”. Mas o dia rendia e passei a lateral de Bebedouro a mais de 1.000 metros, isso ainda as 14:30. O gps me indicava que chegaria de volta a Bebedouro as 16:15, e pensei: “não pode ser que o dia vai acabar antes das 16:15”. O sol ainda brilhava forte, e segui rumo a fazenda Brumado. Na lateral de Barretos peguei a térmica mais forte do dia (4,5 a 5 m/s) e ganhei uma altitude considerável, suficiente para virar Brumado e voltar até esta térmica. Então segui para o ponto e quando faltavam uns 7 km uma estrada de cumulus subindo muito forte, mas eu não queria girar, pois o vento me jogava para trás. Preferiria virar as térmicas na perna de volta, onde o vento me ajudaria. Virei Brumado por volta das 15:27.

Na volta, aquela estrada não estava mais funcionando tanto, e tentei tocar de volta até a lateral de Barretos onde estaria aquela térmica forte. Estaria, porque não estava, mas mesmo assim encontrei uma razoável, mas ainda faltavam alguns metros para o planeio até Bebedouro, e o fantasma do final do dia já se aproximava, pois no final de semana anterior os dias estavam bem esquisitos, com tudo parando de funcionar por volta das 16 hrs. Nessa hora, girando, me ocorreu que deveria reduzir meu Maccready, que ainda estava em 2, e ver se chegava em SDBB. Não deu outra, com Maccready 1 eu chegaria a 300 mts. Então reduzi e sai em planeio final, a mais de 30 km fora de SDBB. Nessa ultima perna o vento me ajudava, e o dia que eu temia estar acabando ainda estava lá, funcionando a todo vapor. E fui aumentando a velocidade a medida que ganhava altura voando em linha reta. Para ficar claro o quanto o planeio final influencia, nessa perna a média foi de 112,8 km/h, sendo que voei a maior parte do tempo a 120 / 130 km/h de IAS.
Cheguei em Bebedouro as 15:56 e fui para o pouso. Pousei as 16 horas. Completei os 302 km da prova em 4:03:34, e média de 73,38 km/h, coisa que eu jamais imaginaria naquele dia do meu C de Prata, quando o Peter Volf me disse que o próximo objetivo eram os 300 km. Foi um voo inesquecível, que ficará marcado na minha vida de volovelista. Obrigado a todos os amigos que contribuíram para isso, sendo que não vou citar todos, correndo o risco de esquecer alguém. Obrigado a todos!! 

Na foto, da esquerda para a direita, Leandro, Flavinho, Marcos e Pedro (na ponta da asa).

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