C de Prata - André Lautert

C de Prata no dia da pátria.

Comemorei o dia da pátria, 7 de setembro de 2012 de maneira especial, em Formosa – GO. Era a 6ª e última prova da etapa centro oeste do Campeonato Brasileiro de Planadores, numa sexta feira.


A decolagem foi as 11:45 (segundo no grid) e logo na primeira térmica, de 1,5 m/s subi a 1.800 mts AGL. A prova seria um AAT (assigned area task) com 3 horas de duração.

Ao contrário dos outros dias de campeonato, voados inteiramente no azul, no começo do vôo desse dia haviam alguns “cúmulos lindos” indicando os topos das térmicas, o que facilitou bastante ficar alto até o momento da largada.

Perto da abertura da faixa, consegui subir a 2.200 mts em uma térmica próxima ao start da prova, o que facilitaria bastante o início do vôo uma vez que a primeira perna seria contra o vento, que no Quero Quero faz uma grande diferença. Como tática neste vôo aguardei que algum PW5 (não haviam outros Quero Quero no campeonato) iniciasse a prova para tentar segui-lo e facilitar a minha vida (pelo menos no início da prova). O Pimenta no CL e o Antoniebi no AA (ambos PW5) deram a largada, e foi a deixa para acompanhá-los. Na primeira perna (Pedra – Taquaral) consegui acompanhar bem, de cúmulo em cúmulo. Já na segunda perna, de Taquaral a Cabeceira Grande, os cúmulos desapareceram e voar no azul (que foi a norma durante a semana) novamente se tornou necessário. Comecei a parar para girar em qualquer coisa que subisse, momento em que fiquei para trás.

Foi nesse momento que pensei “se eu quiser me manter alto e completar a prova, preciso ser criativo” comecei a olhar qualquer detalhe que me chamasse a atenção e notei poeira em um arado à direita de minha rota mas já na área do segundo ponto e um resquício de cúmulos à minha esquerda na rota para o terceiro ponto. Tomei a decisão de tentar algo na poeira e “beliscar a área” e correr para o resto de cúmulos (pois se tinha algo antes poderia ter de novo) caso não desse certo. Chegando na vertical da “poeira” vi que era um trator, e que a mesma derivava bastante com o vento (sinal de que provavelmente não havia térmica ali no momento) belisquei a área e fiquei tentado a ir para uma fogueira perto, cuja fumaça subia acima da altura em que me encontrava, mas a mesma não era alternativa válida pois ficava na área do exército, proibida para sobrevôo. Voltei para aquele resquício de cúmulos e consegui subir novamente, ganhando altura suficiente para atravessar um Malboro em direção ao terceiro ponto, Goiaminas, com apoio em alguns arados no vale.

Minha intenção era sobrevoar a Antena (que fica em cima de um platô de +- 10 Km com arados enormes, local que conheci por terra alguns dias antes em um resgate de pouso fora, o que me deu uma grande tranquilidade). Aprendizado: em dia de azulão, fiapo de nuvem morta é melhor que nada.

Chegando perto do platô da antena comecei a ficar relativamente baixo e ficou claro que não chegaria com altura suficiente para ficar acima do platô. Escolhi um arado com trator trabalhando para tentar subir ou se for o caso pousar, quando vi fiapos de cúmulos 45 graus à esquerda da rota, na borda do platô mas perto o suficiente para uma tentativa antes do pouso no arado. Fui procurar embaixo do fiapo e, depois da já tradicional descendente aniquiladora de altura engatei uma térmica de 2,5 m/s que me colocou de volta no jogo. Saí dessa térmica a 1.900 mts (acima da antena) e , 10 Km depois no ponto chamado voador (próximo a uma lagoa em cima do mesmo platô) estava novamente a 1.000 mts (malditas descendentes...). Neste mesmo local (60 Km fora de Formosa) eu havia ficado a menos de 300 mts alguns dias antes e foi exatamente o local onde formos resgatar por terra o B1 um dia depois daquele... Me lembrei do local onde consegui subir naquele dia (na encosta do platô, virada para oeste, onde o sol estava batendo) e peguei aquela mesma térmica até 1.800 mts. Avancei contra o vento (+- 15 km/h) em direção ao 3o e último ponto (em cima do platô) e caí novamente nas descendentes... marquei com uma volta em cada uns 3 locais onde tinha alguma bolha até chegar (baixo novamente) na área para dar aquela “beliscada” e voltei literalmente voando para o último local que marquei para subir de novo.

Já eram 15:00 horas, e meu objetivo era estar no planeio final antes da 16:00 horas, quando as térmicas “acabariam”. Subi um pouco na bolha acima do platô e saí em direção a Formosa para tentar subir na mesma térmica que duas vezes me salvou, mas ela não quis fazer o mesmo pela terceira vez... Decidi continuar em direção a Formosa, tentando a sorte em alguns arados, uma vez que já fazia algum tempo que o céu estava totalmente azul, sem mesmo aqueles fiapos de “nuvens mortas” que me ajudaram do 2º para o 3º ponto. Ao chegar ao 3º arado na lista de 5 que escolhi para tentar, engatei uma térmica de 2,5 m/s que rapidamente me colocou no planeio para casa. Conferi o tempo de prova e vi que chegaria com antecedência de uns 15 minutos, e também que se voasse mais 1 hora completaria as 5 horas para o C de Prata... decidi subir até o final da térmica (que acima de 1.800 mts passou para 4 m/s...) e fui a 2.200 mts.

Missão cumprida, aproei Formosa e fui pro abraço, feliz por conseguir completar ao menos uma prova do campeonato, e ansioso para garantir meu C de Prata (com as descendentes da região mesmo 1.000 metros podem ser pouco quando se precisa voar mais 45 minutos).

Cheguei na vertical do aeródromo com altura de sobra (1.200 mts) e rapidamente me juntei a um Pik 20 que estava girando uma térmica fraca mas consistente nas redondezas, onde subi novamente a 2.000 mts. Aproveitei para tirar umas fotos e gravar uns vídeos, impressionante como as 4 horas e 15 minutos de vôo haviam passado rápido, e como os 45 minutos finais pareceram uma eternidade. Alto e com frio, sem precisar analisar centenas de informações e tomar dezenas de decisões por minuto, a cada 2 voltas no topo da térmica cada novo minuto conquistado foi sendo comemorado como a virada de turn point na prova...

Faltando 5 minutos para as 5 horas saí da térmica e comecei a descer, lentamente no início até encontrar uma das conhecidas descendentes, essa de 3 m/s. Nesse momento já havia fechado as 5 horas e comecei a rodar na descendente até os 500 metros, onde iniciei as tratativas para o tráfego e pouso na 08 (pista de grama) de Formosa.

Pouso tranqüilo e sorriso estampado no rosto, um vôo que vai ficar para sempre em minha memória, último dia de campeonato, prova completada e C de Prata no bolso... que venham os 300 km!

Agradeço a oportunidade proporcionada pelo Aeroclube do Planalto Central, ao disponibilizar o aluguel de um de seus planadores, um forte abraço para o Moure, Fabiano, Guiu e Rafael, que não mediram esforços em tornar o campeonato o sucesso que foi, ao João Gustavo, Lucas, Rebello, Meneghins (pai e filho), Umberto e Jabuti, pelo companheirismo, ao Batata pela preocupação com o novato aqui, ao Pimenta e Antoniebi, pela companhia no vôo, à dona Lúcia, sempre sorridente e atenciosa e a todos os demais pilotos e amigos que participaram dessa minha semana de aprendizado e desse meu momento especial.

Log do vôo:

http://www.onlinecontest.org/olc-2.0/gliding/flightinfo.html?dsId=2738089

141,8 Km, 48,72 Km/h

Foto: perseguindo um PW5 no início a prova...

 



Foto: Prova completa, rodando térmica na vertical do aeródromo para fechar as 5 horas...

 

 

André Lautert
11/09/2012

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