C de Prata - Marcelo Vianna

Senhores,

Não sou o Umberto mas dou minhas "canetadas". Mas ainda muito longe de poder chamar de escrever, coisa que desaprendi depois que entrei no TCU.

Como todos já devem saber, sábado eu fiz meu C de Prata. Não foi tarefa simples como eu imaginava e teve como agravante ser minha última chance antes do campeonato em setembro.

Mas vamos ao que interessa: o vôo! O dia prometia ser bom com térmicas fortes, base mais alta mas com vento (entre 18 e 20 km/h). Aconselhado pelo Rebelo decidi decolar sem lastro para subir mais rápido e me manter mais alto sem grande dificuldade durante todo o voo.

Cheguei cedo ao clube preparei tudo, incluindo aí um acréscimo de alguns saquinhos para enjôo, comi um sanduiche e as 11:15 já estava indo pra pista com a ajuda do Rebelo. Assim que alinhamos o LU o Nilor e o Umberto já vinham taxiando o LS para a cabeceira. Enquanto eu fazia os últimos preparativos para decolar os dois fizeram o turno de pista com o Humberto no comando.

Tudo pronto para decolagem o LS pousa faz o backtrack para a 05 e alinha. Opa o Umberto não desembarcou. Lá vou eu ser cobaia de rebocador de novo. Check feito e, depois de uma rápida repassada nos itens, autorizei a decolagem! Ventinho de través mas o LU se comportou muito bem. Eu não atrapalhando é um bom planador.

Tudo bem na decolagem mas não custava garantir: "Umberto, somente curvas de pequena ok?"! Fomos bem recebidos por térmicas bem fortes logo no começo. Opa o dia vai ser forte. Tudo correu bem até atingirmos 400 metros. Neste momento aconteceu uma coisa decisiva para que eu conseguisse cumprir todos os objetivos do C de Prata (pé quente este Umberto): o LS entrou em curva para a esquerda(para girar uma térmica) e subiu muito me deixando numa posição desconfortável. Situação que ainda piorou quando o LU entrou na mesma térmica e o LS já estava na descendente. Fiquei numa situação onde preferi desligar! E desliguei na descendente! Putz, se eu não pendurasse ali seria o fim da minha chance.

Procura daqui e dali e achei uma térmica a 300 m subi a 500m e novamente desci a 350. Dez minutos de vôo e eu ainda a 350m. "Tô" fudido, pensei. Mas veio a térmica que eu precisava e subi, não muito, mas o suficiente para ciscar lá pelo platô do vale tempo suficiente para o dia ficar mais forte e poder sair de Formosa.

Como eu ia pra Cabeceiras resolvi, depois de mais de uma hora de voo ir para o outro lado da cidade pela entrada do vale e sair pelo lado da Pionner. Mas o dia estava estranho. Além do vento,que estava pelos seus 25 km/h, as descendentes estavam bem fortes. O caminho até a Pionner também não prometia. Decidi ir para a beirada do campo do exército, atrás da lagoa, onde parecia ter alguma coisa. Não tinha mas mais um pouco para frente tinha. O Wladimir uma vez já havia me dito que o negócio é ir para a frente! Fui! Chequei lá a uns 450m mas lá estava ela, um canhão‼!

Enquanto subia fui observando qual o melhor caminho e decidi que, como tinha tempo de sobra, iria seguir a beirada do campo do exército até uma estrada que estava a uns 30 km e depois virar 90º rumo a Cabeceiras. Cheguei lá em uns 35 minutos e então aproei Cabeceiras.

Desde que havia saído de Formosa estava meio mareado me sentindo "empanzinado" com o sanduiche. Pensei que, talvez, com um arrotinho eu melhoraria‼! Ainda bem que decidi por um arrotinho por que se fosse um peidinho eu teria voado todo cagado dali para frente. O tal arrotinho veio acompanhado do sanduiche da Dona Lúcia! Quase não tive tempo de pegar o saco de enjôo na alavanca do freio.

Voltando ao vôo, visualmente era uma estrada de nuvens mas não funcionava como uma. Tinha térmicas fortes e descendentes idem! Fui seguindo em direção a cabeceiras mas sentia que a distância se arrastava e demorei a perceber que agora o vento de proa era de 43 km/h e sem lastro eu não andava. E pior: Cabeceiras estava sombreando. Escolhi sair da proa de Cabeceiras e ir mais a esquerda onde tinha mais sol. Deu certo mas o desvio me deixou a 15 km de lá. E o caminho até lá estava todo sombreado. Antes de ir outro saco de enjôo utilizado.

Subi tudo que dava e decidi ir até lá e voltar para nuvem mais próxima. O Primeiro objetivo estava alcançado: CABECEIRAS‼! Dei uma circulada por cima do povoado e comecei a voltar, afinal já eram 16 horas e o dia para o lado de Formosa não parecia estas coisas.

Saí de Cabeceiras a 900m e percebi que chegaria muito baixo na primeira nuvem boa. Decidi desviar um pouco para a direita, apesar de não haver nuvens ali, e ir para cima daqueles morros a direita que estavam com sol e com aquele vento como gatilho havia muita probabilidade de estar subindo alguma coisa. Boa decisão pois chequei lá a 680 m e mais uma vez, já pensando que ficaria por ali mesmo, precisei de outro saquinho de enjôo. Manche numa não e saquinho na outra tentando centrar alguma coisa. Depois de resolver o problema do saco de enjoo consegui subir a 1200 m. Altura suficiente para chegar ao "batatão" mais a frente com altura para entrar na térmica na sua parte boa.

A boa notícia era que cheguei a 1500 e cumpri a segunda meta do dia: ganho de 1000m! Graças ao desligamento prematuro pois a base não foi a esperada para o dia. A má era que pela frente eu tinha o Bianco e nenhum sinal de térmicas até Formosa e já eram mais de 4 da tarde. Mas havia um bom vento de cauda.

Graças ao vento e a maior estabilidade do horário consegui chegar a Formosa. Mas cheguei na Lagoa a 400m! Quando ainda estava passando pela Pionner pensei em ir para a Pedra Preta que fica acumulando calor o dia inteiro e no final do dia sempre salva, mas preferi ir direto para Formosa. O risco de um pouso fora seria muito grande se a Pedra não funcionasse. Melhor pousar na pista com 4 horas e 40 de vôo do que pousar fora com 4h 45.

Chegando na lagoa não encontrei nada e fui andando pela área ensolarada da cidade entre a lagoa e a matinha aonde sempre tem alguma coisa salvadora no final do dia. Tinha! Mas não o suficiente para me manter mais 20 minutos.
Durante este final de vôo a frase que pairava na minha cabeça era do Rebelo: "se mantenha alto durante todo o vôo, principalmente no final! Tem muitas tentativas de 4h e 58min!". Resolvi que não desistiria até o último segundo‼! Na verdade eu não consegui me manter alto como eu gostaria em nenhum momento do vôo.

Fui procurando térmicas no cone da cabeceira 08 e encontrei uma salvadora a 200 m ali em cima da antena. Não sabia quanto tempo ainda faltava e meu rádio já não transmitia (bateria fraca). O Rafael então me falou pelo rádio: "Vianna, você tem que voar mais 20 minutos". Putz‼ Girei tudo que encontrei, zerinho, meiozinho, zerovírgulaum…, e quando tive certeza que já tinha tempo de sobra fui para o pouso. E que pouso bosta‼ Temos que ficar atentos depois de vôos longos. Os reflexos não são mais os mesmos e temos que antecipar mais as ações. No caso deste pouso o vento de través ainda estava lá. Demorei a reagir depois de ter dado todo o pedal e o LU insistir em aproar o vento. Ele chegou a derrapar um pouco até eu botar a asa no chão e trazê-lo de volta.

Mais uma vez a ajuda de todos foi fundamental‼ obrigado‼!
Agora é continuar aprendendo! E preciso aprender muito ainda‼!

Vianna

 

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