RELATOS DE VOOS

RELATO DO PILOTO IAGO MANZI NOVAIS - PILOTO MAIS JOVEM DO BRASIL


   Meu começo no voo a vela foi quando o Marcelo Vianna me chamou para fazer o meu primeiro voo de planador, nessa época eu tinha uns 10 anos. Aquele voo foi tão marcante que me lembro de cada detalhe. A partir daquele dia eu tive a certeza de que queria ser piloto, mas eu ainda era muito novo para começar a voar, então continuei voando com aeromodelos e nos simuladores de voo no computador. 

     Depois de um certo número de voos no Puchaz, comecei a estudar para a prova da ANAC e do aeroclube, consegui bons resultados em simulados, então decidi fazer a prova de PPL. Consegui passar na prova, a partir daquele momento era só esperar ser liberado para o primeiro voo solo. Uma semana depois de ter passado na prova fui até ao aeroclube e acabei sendo liberado pelos instrutores a fazer o primeiro voo solo. Nesse dia o tempo estava nublado com algumas chuvas isoladas, porém a atmosfera estava calma e com pouco vento. Quanto ao voo foi perfeito, voei cerca de 50 minutos sozinho, a sensação de olhar para trás e não ver ninguém é indescritível. Tive a sorte que no dia o Claudio Reis, que também é piloto e um ótimo fotógrafo, estava na área. Ele entrou no avião rebocador e fez várias fotos sensacionais que evidenciam o meu sorriso e alegria daquele momento. Com certeza esse vai ser o voo mais marcante da minha vida...




        Hoje, sou piloto e estou praticando para começar a fazer voos de navegação. Pretendo seguir carreira na aviação e tenho certeza que o voo a vela está sendo uma ótima base para isso tudo. Meus agradecimentos a minha família que sempre me incentivou, especialmente aos meus pais que são os meus “paitrocinadores” rsrsrs, a todos que me deram carona para o Aeroclube e que ainda me darão até eu completar 18 anos e tirar a minha habilitação de motorista, ao Aeroclube do Planalto Central e a FBVV que batalhou por isso durante anos! ; )




RELATO DO PILOTO SERGIO ANDRADE SOBRE O RECORDE DE 1000 KM NO CEARÁ


Voos de longa distância sempre me fascinaram, pelo desafio de lidar com diferentes condições meteorológicas seja por regiões atravessadas, como também temos que lidar com diferentes fases do dia.

Apesar de contarmos com excelentes pilotos para cross country, os dias são curtos, principalmente no Nordeste, onde as térmicas são mais fortes e a estação mais longa...

Um dia, examinando o mapa de relevo do Ceará, me chamou atenção uma serra que terminava em escarpa por quase 250 km, orientada N-S e perpendicular aos ventos aliseos. Se o voo em colina funcionasse, o dia de voo poderia aumentar em quase duas horas.
Comentei com Itamar sobre a idéia e com seu entusiasmo começou a indagar sobre a condição na serra, mas com exceção de parapentes e asa delta, não havia muita informação.



Karl Voetsch, que tem veia de explorador, havia feito várias campanhas ao Sul do Ceará e Piauí, mas não havia experimentado a colina.
Mesmo assim, com sua experiência, organização e capacidade de análise, nos ajudou muito com seus conhecimentos sobre a região.

Pedimos então ao Rene Queiroz para colocar a região no Condor e assim que ficou pronto o cenário, comecei a voar com os ventos médios das estações de medida de vento levantadas por Itamar: dava pra voar colina até Quiterianópolis, 200 km ao S de São Benedito.
Decidimos basear em São Benedito por ter uma pista de 1800x30m asfaltada e um amigo de Itamar tem lá um hangar com um Cirrus onde podíamos colocar o SA em diagonal, apesar de sobrar uns 3 m de asa pra fora...
Como estávamos focados na colina, Itamar sugeriu o mês de novembro, por ser o mais ventoso.
Resolvi antecipar um pouco, combinando com Silvio e Leo de levarem o SA na carreta de LEM até lá e eu chegaria 26/10 e Itamar poderia voar 2 e 3/11.

Silvio e eu começamos a explorar a região e logo no segundo dia fizemos 720 km para o lado do Ceará.
No dia 29 resolvemos experimentar o Piaui para W e fizemos 1006km, já com o que seria record de distância livre em FAI de 878 km.

Karl, coach e cheer leader, acompanhava os voos pela OLC. 
-Sergio, você tem que decolar mais cedo!!

No dia 2/11 Itamar chegou. Largamos as 9:00 e depois de bloquear Picos, fomos pro lado do Piaui. Não deu os 1000, mas outro record, FAI distância livre 916 km.



Finalmente, no dia seguinte decolamos 7:30 largamos 7:57, seguimos a serra até Fazenda Planalto e bloqueamos nosso waypoint S, Fronteiras 338 km com média de 93 km/h, rodando 19% com média de 1,1 m/s

A perna até Coelho Neto, 415 km para NW foi a mais veloz e divertida, embora não tão boa como no dia anterior, com muitas estradas e vento de cauda. 14% do tempo subindo a 1,8 m/s e 132 km/h.

Bloqueamos o ponto as 14:43, 17 minutos antes do planejado e pensamos: 2:50h pra fazer 250 km vai ser mole.

Que surpresa! Os cumulus começaram estratificar, térmicas espaçando e perdendo força e o vento começava a aumentar e virar de proa, a medida que o terreno subia. Atmosfera parada, já não tínhamos altura para pousar em S. Benedito, quanto mais para terminar a prova com a chegada 8 km mais longe. 

Silêncio total no planador, lembrava um daqueles filmes de submarino tentando se esconder de destroyer.

30 km, tão perto e tão longe, pensava, mas vou seguir em frente até 200 m AGL e ligo o motor, paciência, quando no azul encontramos uma termiquinha tão fraca que nos jogou 2 km pra trás, mas foi o suficiente pra ganhar altura, cruzar a crista da serra a 180 m e terminar a prova!
Depois foi ligar o motor, esperar esquentar, ganhar altura voltar pra pista e pousar.
Ufa, finalmente o FAI 1000, 10:21 totais de vôo, haja traseiro! Dava pra fazer Rio-Paris de comercial, com direito a jantar, café da manhã, levantar, ir ao banheiro, puxar conversa com alguém...



Formiga me sugeriu fazer uma comparação dos paralelos de um vôo record com area empresarial, vamos lá:

1. Objetivo ou Missão:  tudo o mais é decorrência do que se quer atingir
2. Conhecimento Técnico do que pode influir para alcançar o objetivo: no caso, informações sobre meteorologia, experiência de quem conhece a região, como Karl, regime de ventos, pistas, etc.
3. Team Work:  não se faz uma empreitada destas sozinho. Desde Sr. Wilson, o dono do hotel que passou a adiantar o café da manhã em meia hora, Gleison, piloto do TBM, Pedro dono do hangar, Silvio, Leo, Itamar e eu, todos com um sentido de missão a cumprir.
4.determinação- por definição, objetivos difíceis não se alcançam facilmente. Jim Collins, consultor de empresas, criou para estes o acrônimo BHAG, Big, Hairy, Audacious Goals...

Como observou Karl, de todos os dias que voamos lá, o do FAI 1000 foi o mais fraco de todos, com relação a média de subida e base. Ele mesmo compilou os dados e fez esta tabela:

Em 10 dias lá, 9 voados, um para descanso
Km: 5898
Hrs: 58

Acho que esta região tem toda condição de ser uma alternativa a Namibia, por exemplo; o Ceará tem belíssimas cadeias de montanhas que forma lindas estradas, a parte norte da Serra da Ibiapaba é de uma beleza impar, é mais perto da Europa e América do Norte e tem outros atrativos além do voo, como praia, parque natural, boa comida, povo acolhedor, além de outros...

Sergio Andrade
Piloto do ASH30



RELATO DO VOO DE 300 KM DO PILOTO CAIO SIMIONI

Ao longo do voo eu ficava refazendo a minha média para ver se conseguiria ficar no planeio final às 16h30, mas não, sempre dava que nesse horário eu estaria girando no último ponto que seria a cidade de São Joaquim da Barra.

Fui batalhando e consegui me adiantar em 20 min, mas não era o suficiente, já que o dia, os cúmulos (nuvens que indicam as térmicas) na minha perna final já não existiam, nesse ponto já estava considerando mais um pouso fora pois estava a 60km de Bebedouro.

Como estava alto consegui avistar uma queimada no meio do caminho, exatamente em minha rota!!! Meu medo, eu estava a 20 min de voo dela, e se os bombeiros conseguissem controlar o fogo antes da minha chegada (já ocorreu antes! risos) mas deu certo, cheguei a menos de 500 metros de altura e o fogo me lançou a 1700 metros, um ganho de 1200 metros em menos de 5 min ou seja 4m/s em média!!!. Logo o computador me informou que eu estava bem acima do necessário para o planeio final!!! Fiquei muito feliz ao chegar e pousar na mesma pista que eu decolei!! hehehe

Agora só consigo pensar em fazer novamente e praticar para que novas conquistas pessoais aconteçam!

Meus agradecimentos ao Aeroclube de Bebedouro, FBVV, Navarro, Marcos Vicente, Danúbia, Latorre e à equipe AA.”


Caio Simioni

Piloto do PW5

                                                  

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